“Ausência de Palhinha no Mundial pode gerar frustração e injustiça”
Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, o psicólogo do desporto João Lameiras falou sobre o impacto que uma ausência de um Campeonato do Mundo pode ter não só no rendimento do jogador, como também a nível mental.

As convocatórias para as fases finais de provas de seleções geram sempre discussão, não só entre adeptos, como também entre jogadores. E isso mesmo aconteceu recentemente quando Roberto Martínez e Carlo Ancelotti divulgaram os eleitos para o Mundial2026.
Se do lado dos brasileiros se falou muito da ausência de João Pedro, que foi uma das unidades em plano de evidência no Chelsea na última temporada, com 20 golos marcados, do lado de Portugal o tópico de discussão foi o facto de João Palhinha ter ficado de fora dos convocados. Ambos os jogadores estavam numa pré-convocatória, mas não mereceram honras de lista final.
Perante este cenário, o Desporto ao Minuto decidiu partir para a conversa com João Lameiras, psicólogo do desporto, que nos explicou que impacto podem ter essas ausências, sobretudo depois de épocas desportivas a grande nível.
“É uma situação particularmente dura que um atleta pode atravessar. Quando entra numa pré-convocatória, o objetivo deixa de ser um horizonte longínquo, passa a ser algo quase palpável. Por isso, quando a decisão final chega e o nome não está na lista, o impacto é real e pode gerar um sentimento de injustiça e frustração difícil de ignorar. O que torna tudo ainda mais desafiante é quando o jogador sente que fez uma boa época, e muitas vezes fez mesmo. Só que uma convocatória nunca depende apenas do rendimento individual, mas essencialmente daquilo que o selecionador entende que a equipa precisa naquele momento. O mais importante é o jogador conseguir reconhecer a desilusão sem deixar que ela defina o seu valor. Ficar de fora de um Mundial dói, mas uma não convocatória não apaga a época que foi feita, nem diz nada de definitivo sobre a qualidade do atleta”, começou por contar João Lameiras, que vê como inevitável a comparação entre jogadores que estão dentro e fora da convocatória final.
“A comparação faz parte da experiência humana, e no futebol ainda mais, porque tudo é analisado, debatido, comparado. É natural que um jogador olhe para quem foi selecionado e sinta que merecia estar no lugar dele. O problema não é a comparação surgir, mas sim ficar preso a ela. Se servir para refletir, para perceber onde melhorar, para voltar mais forte, pode até ser construtiva. Mas quando se transforma em ressentimento, em ruminação, em sensação permanente de injustiça, deixa de ser útil e passa a ser um obstáculo. A comparação é natural, mas o risco começa quando o jogador perde de vista aquilo que controla e fica absorvido por aquilo que não depende dele”, vincou ainda.
O impacto na próxima época desportiva e o novo livro
João Lameiras diz ainda não antever um impacto negativo na próxima época, referindo que esta desilusão pela ausência pode servir de combustível para que o jogador mostre que não merecia ter ficado de fora dos convocados.
“Pode ter impacto, mas não necessariamente de forma negativa. Para muitos jogadores, uma exclusão deste tipo torna-se uma fonte poderosa de motivação. Funciona como combustível para um começo de época com intensidade diferente, vontade de mostrar que o nível está lá. Mas há aqui uma linha muito ténue. Querer provar valor é saudável, mas viver obcecado em provar que o selecionador se enganou, já não. Quando o foco passa a ser responder a terceiros, o jogador corre o risco de perder ligação ao seu próprio processo, isto é, ao seu jogo, àquilo que sustenta a sua melhor performance. A desilusão pode e deve transformar-se em motivação, desde que não se transforme em revolta. Um jogador joga melhor quando quer evoluir do que quando joga apenas para provar que alguém errou”, referiu ainda o psicólogo do desporto.
João Lameiras, que recentemente lançou o livro ‘Intervenção Psicológica em Contexto Desportivo’, que assina com Pedro L. Almeida e António Rosado, destacou o impacto que a saúde mental pode ter no rendimento dentro de campo.
“É impossível separar saúde mental e rendimento, são faces da mesma moeda. Um atleta pode estar fisicamente preparado, técnica e taticamente bem afinado, e ainda assim não ser consistente ao longo de uma época inteira se não estiver emocionalmente equilibrado. Mas também há algo importante a enfatizar. Estar atento à saúde mental dos jogadores não é tratá-los como frágeis. É dotá-los de competências para lidarem melhor com a exigência, para recuperarem dos momentos difíceis e para manterem níveis elevados ao longo do tempo”, sustentou o profissional.
“Este trabalho não se resume a resolver problemas. Estamos a falar de criar condições para que os atletas consigam expressar todo o seu potencial e a saúde mental não pode ser vista como um tema à parte da performance, mas sim como uma das suas fundações”, finalizou.



