Martínez tem de perceber a tempo a idade de Ronaldo

No final do jogo com a RD Congo, e quando Portugal ainda lambia as feridas de um empate constrangedor, um adversário definiu muito bem como Ronaldo é encarado por quem o defronta: “Para ser sincero, não preparámos muito um plano para travá-lo, porque sabemos que ele já não é o mesmo. Nesta idade, já não é a mesma coisa”, disse Makaku com uma genuinidade desconcertante. Quando do outro lado alguém vê um dos melhores da história como uma sombra, o selecionador só precisa de ter consciência que mantê-lo muito tempo em campo é pôr em causa a potencialidade da equipa.
Mas o problema de Ronaldo é muito mais profundo do que olhá-lo apenas na perspetiva física de quem já acusa o peso da idade. É pensar que ele continua a ser a mesma máquina goleadora do passado e estar agarrado a esta imagem triunfante que já não faz qualquer sentido neste nível competitivo, só mesmo num campeonato mediano na Arábia Saudita. O próprio jogador vive preso a essa ideia, obcecado por bater recordes que lhe cegam a evidência maior de já não ser o mesmo ponta de lança mortífero e desequilibrador.
Talvez por isso, o jornal “The Independent” definiu esta imagem com uma acutilância provocadora: “Dez homens e uma estátua”. Meio mundo já constatou esta evidência, até um simples e corajoso jogador da RD Congo ou uma insuspeita publicação inglesa. Falta agora Roberto Martínez ter essa perceção desoladora e deixar de ver Ronaldo como se o capitão tivesse parado no tempo e continuasse a jorrar ketchup em direção da baliza. Se o selecionador não perceber isso a tempo, Portugal arrisca-se a sofrer no Mundial.



