Marinha mandou retirar atrelado das instalações. Havia risco de explosão
A Marinha solicitou à Polícia Judiciária a retirada urgente das suas instalações do atrelado com produtos químicos que foi apreendido na Operação Pacoba. O reboque, recorde-se, foi encontrado na empresa Construbarcelos, do amigo de Luís Neves, ministro da Administração Interna - e há um inquérito "para apurar as circunstâncias da alegada movimentação".

Há um novo capítulo no caso que envolve o atrelado apreendido na Operação Pacoba – uma ação da Polícia Judiciária (PJ) realizada na zona Oeste do país que permitiu desmantelar “um dos maiores laboratórios de droga da Europa”, em dezembro de 2024 – e que foi encontrado na empresa Construbarcelos, que pertence a um amigo de Luís Neves. Noticia este sábado o Correio da Manhã que a Marinha pediu à PJ para retirar com urgência das suas instalações, situadas na Margem Sul do Tejo, o atrelado com os produtos químicos – uma vez que havia risco de explosão devido ao aumento da temperatura.
Então, prossegue a publicação, foi neste momento que o empreiteiro amigo do ministro ‘entrou em cena’ e “se terá oferecido para retirar a galera” do local e levá-la até às instalações da Construbarcelos – onde a PJ a encontrou, na semana passada.
No início do verão de 2025, a Marinha terá salientado à PJ que não poderia manter os bidões (que estavam ao ar livre) com os produtos químicos – uma vez que o calor aumenta a pressão e poderia levar a um rebentamento. Por sua vez, e por não ter verbas para pagar a destruição dos produtos, a Judiciária tentou contactos com os seus prestadores de serviços para que o atrelado fosse retirado daquele local.
João Carvalho, amigo do ministro da Administração Interna, mostrou-se disponível para levar o atrelado com os produtos químicos para o seu terreno – não cobrando qualquer valor, explica ainda o Correio da Manhã. Enquanto o reboque estivesse nestas instalações, a PJ procuraria uma empresa para destruir os químicos.
Contudo, o que agora se sabe é que o reboque ficou na Construbarcelos, assim como os bidões com os químicos, avançou ontem o Público.
Recorde-se que, na sexta-feira, a Polícia Judiciária emitiu um comunicado no qual anunciou ter aberto um inquérito sobre o reboque apreendido num processo de tráfico de droga que foi encontrado atracado a um camião da empresa Construbarcelos – que fez obras numa propriedade do ministro da Administração Interna.
A Direção Nacional da PJ explicou em comunicado que “teve conhecimento de que uma galera apreendida, no âmbito de um inquérito relacionado com o tráfico de estupefacientes, havia sido movimentada e parqueada em Barcelos”.
Com esta informação, foi instaurado um inquérito “para apurar as circunstâncias da alegada movimentação, que poderia confirmar a prática de ilícitos criminosos”, acrescentou a PJ, depois da notícia do semanário Nascer do Sol.
A PJ confirmou que “a galera se encontrava estacionada em Barcelos, atracada a um camião da empresa Construbarcelos”, e que, por se tratar de um bem apreendido, ficou “novamente à guarda da Polícia Judiciária, bem como os produtos que a mesma carregava, esclarecendo-se que estes não têm natureza estupefaciente”.
O caso foi comunicado ao Ministério Público que, em resposta enviada à Lusa, confirmou também a “existência de um inquérito relacionado com bens apreendidos à ordem do processo designado ‘Operação Pacoba'”, que se encontra em fase de julgamento.
Na mesma resposta, a Procuradoria-Geral da República (PGR) acrescentou que “tem vindo a acompanhar outros factos noticiados e, nos termos da lei, procede à respetiva análise”. “Havendo fundamento e necessidade, desenvolve depois todas as diligências que considera pertinentes ou adequadas”, referiu ainda.
A polémica teve início quando o semanário Nascer do Sol noticiou que o ministro da Administração Interna contratou para remodelar um imóvel que detém em Odemira uma empresa anteriormente responsável por obras na PJ quando Luís Neves era diretor nacional.
Segundo a publicação, entre 2020 e 2025, a empresa Construbarcelos recebeu cerca de 1,9 milhões de euros em contratos públicos, valor confirmado dias depois pelo ministro da Administração Interna, em entrevista à TVI/CNN.



