Olhou para o eclipse sem proteção? Há quem já tenha queixas, eis os sinais de alerta
Apesar da informação divulgada nas últimas semanas sobre os riscos de observar o eclipse sem proteção adequada, milhares de pessoas juntaram-se ontem para assistir ao fenómeno, com ou sem óculos certificados. Agora, começam a surgir nas redes sociais relatos de quem diz estar a sentir as consequências da exposição. Mas como saber se os olhos foram afetados? Quais são os sinais de alerta e o que deve fazer quem suspeita de uma lesão?

Apesar da catadupa de informação que tinha vindo a ser divulgada nas últimas semanas, milhares foram o que se reuniram para assistir, com ou sem óculos devidamente certificados, ao eclipse solar do dia 12 de agosto. Agora alguns já admitem nas redes sociais começar a pagar a fatura da decisão, há até quem já relate problemas nos olhos.
O site francês Le Dauphiné Libéré dá conta de várias publicações no Tiktok de pessoas que, no dia seguinte ao eclipse, afirmaram sofrer de dores e de queimaduras nos olhos.
Alguns internautas terão mesmo recorrido a serviços de urgência oftalmológica depois de não sentirem melhorias nos sintomas.
As lesões provocadas pela observação direta do Sol são conhecidas como retinopatia solar ou maculopatia solar e podem afetar particularmente a mácula, a zona da retina responsável pela visão central.
Mas nem todas as queixas significam uma lesão na retina, e por isso, a SIC Notícias explica-lhe quais são os sinais de alarme.
As queixas (geralmente) passageiras
Passar muito tempo a olhar fixamente para o eclipse, mesmo utilizando corretamente os óculos de proteção, pode fazer com que se pestaneje menos.
Isso pode provocar secura ocular, sensação de areia ou de corpo estranho e irritação.
Segundo Laura Sararols, chefe da Unidade de Retina do Hospital General de Granollers e diretora de serviço da OMIQ no Hospital Universitari General de Catalunya, estas queixas são geralmente passageiras e podem desaparecer em poucas horas.
A especialista, citada pela Euronews, compara a situação ao desconforto que pode surgir depois de várias horas de concentração em frente a um ecrã.
A preocupação surge quando se verificam alterações na visão central.
Consequências podem não ser imediatas
Um dos aspetos que pode tornar a retinopatia solar particularmente difícil de identificar é o facto de a retina não ter recetores de dor.
“No momento em que está a olhar para a luz, não sente nada. Não há dor, não tem sensação de nada”, explica Sararols.
Também os especialistas ouvidos pela BBC alertam para esta particularidade. Alexander Ionides, cirurgião oftalmológico do Moorfields Eye Hospital, em Londres, explica que a lesão pode começar a manifestar-se gradualmente e sem dor.
Os sintomas podem surgir algumas horas depois da exposição e, segundo Sararols, em alguns casos podem aparecer apenas no dia seguinte ou até dois dias depois.
Por isso, o facto de uma pessoa se sentir bem imediatamente após o eclipse não significa necessariamente que não tenha ocorrido uma lesão.
Os sinais de alerta
Depois de uma observação desprotegida do eclipse, um dos principais sinais a que se deve estar atento é o aparecimento de uma mancha no centro do campo de visão.
“O doente pode notar que na zona central há uma espécie de mancha negra, uma área que não foca ou uma zona acinzentada que está sempre no mesmo ponto”, explica Laura Sararols.
Também podem surgir visão turva, imagens distorcidas e dificuldade em distinguir as cores, diminuição ou perda súbita da visão ou dor ocular intensa. Nestes casos, a Direção-Geral da Saúde recomenda contactar o SNS 24.
Tinha 8 anos quando olhou para o Sol durante um eclipse, agora está cega
Bastam poucos segundos para provocar danos
Não é necessário olhar para o Sol durante vários minutos para existir risco de lesão.
A BBC recorda que, depois do eclipse total visível no Reino Unido em 1999, cerca de 70 pessoas ficaram com lesões na visão. Muitas tinham olhado para o fenómeno durante menos de um minuto, sem perceber que estavam a danificar os olhos.
O perigo aumenta porque, durante um eclipse, a luz ambiente diminui e o mecanismo natural que normalmente nos leva a desviar o olhar do Sol pode não funcionar da mesma forma.
Apesar de o disco solar estar parcialmente tapado pela Lua, o Sol continua a emitir radiação intensa e ultravioleta capaz de danificar a retina.
E se o eclipse foi gravado com o telemóvel?
Ter utilizado um telemóvel para gravar o eclipse não significa, por si só, que tenha ocorrido uma lesão ocular.
A diferença está na forma como o fenómeno foi observado. Se a pessoa colocou o telemóvel numa posição, iniciou a gravação e acompanhou o eclipse apenas através do ecrã, não esteve sujeita à mesma exposição direta do que alguém que olhou para o Sol.
“Se deixar o telemóvel preparado numa posição, carregar em gravar e depois olhar apenas para o ecrã, não há problema”, explica Sararols.
O risco existe se, enquanto preparava ou fazia a gravação, a pessoa desviou o olhar do ecrã e observou diretamente o Sol sem proteção.
Já a utilização de binóculos, telescópios ou câmaras com visor ótico sem filtros solares adequados representa um risco acrescido, uma vez que estes equipamentos podem concentrar a radiação solar e aumentar significativamente a possibilidade de lesão.
Atenção às crianças
Uma criança pode não admitir que olhou diretamente para o Sol durante o eclipse, mesmo que tenha sido aconselhada a não o fazer. Por isso, se começar a queixar-se de alterações na visão nos dias seguintes, os pais devem considerar essa possibilidade.
“As crianças não nos vão dizer que estiveram a olhar para o eclipse e que fizeram aquilo que lhes disseram para não fazer”, alerta Sararols.
Perante qualquer alteração persistente da visão, a recomendação é procurar avaliação médica.
Se tiver uma lesão na retina, qual é o tratamento?
Atualmente, não existe um tratamento cuja eficácia esteja comprovada para reverter a retinopatia solar.
“Costumam ser administrados corticoides, mas não foi demonstrado que sejam eficazes. Na realidade, não há nenhum tratamento que funcione para resolver essa situação”, explica Sararols.
Ainda assim, a consulta é importante. O oftalmologista pode identificar e registar a lesão e acompanhar a sua evolução.
Em alguns casos pode ocorrer uma recuperação espontânea parcial, à medida que determinados fotorrecetores se regeneram. Noutros, podem permanecer sequelas permanentes.



